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Texto por: Cássio de Sousa Borges*

Milito no Partido Comunista do Brasil há 16 anos, desde meus 17 anos de idade, e durante esse tempo tive a oportunidade de participar presencialmente de outros dois congressos nacionais, o 12º e 13º, ambos em São Paulo. Cada um desses congressos foi uma turbina para o jovem coração comunista que ascendia. Neste domingo, 17 de outubro de 2021, encerramos o nosso 15º Congresso, o meu terceiro, que se diferencia dos demais por ter acontecido virtualmente. Nisso perdemos um pouco, pela falta dos reencontros presenciais e afetos, tão necessários para fortalecimento de uma rede de camaradagem consolidada ao longo dos nossos quase 100 anos de história. Mesmo assim, em nada perdemos na qualidade, mobilização, unidade política, acerto estratégico, formulação, coerência ideológica e compromisso revolucionário. Também, aquilo que me marcou nos meus dois primeiros congressos, estava presente: a emoção. Acredito que muitos camaradas também compartilham comigo desse sentimento.

Começo pela homenagem realizada ao camarada Haroldo Lima, uma das irrecuperáveis vítimas dessa pandemia, que nomeou o nosso congresso. Conheci Haroldo Lima no contexto do debate sobre o Pré-Sal, quando este era presidente da ANP, tendo assistido de perto o seu brilhantismo político. Sabia também que se tratava de uma quadro histórico do partido, principalmente por ter sobrevivido a um dos episódios mais traumáticos da nossa história: a Chacina da Lapa. Mas, do meu conhecimento prévio, nada se compara a tê-lo assistido relatar sobre a sua felicidade ao ter vencido o torturador. Não era tristeza, ele sorria contando sobre seu corpo mutilado. Tratava-se de orgulho por ter resistido e protegido seus camaradas de luta e de causa revolucionária. Da mesma forma combativa foi o seu ingresso no partido, quando a Ação Popular se apresentou para nossos dirigentes, dentre eles João Amazonas, e se propuseram lutar na Guerrilha do Araguaia, mesmo que implicasse na possibilidade de morrerem por isso. Sua análise sobre teoria e luta, a constituição do militante comunista que estuda para revolucionar, e necessita se identificar e estar presente na luta do povo para poder teorizar, foi uma aula, e que, por incrível que pareça, nos custou somente uns 30 segundos. Esse vídeo precisa ser amplamente compartilhado dentro e fora do partido. Haroldo Lima e o seu legado representam, verdadeiramente, aquilo que Diógenes Arruda definiu como “a educação revolucionária do comunista”, e por isso, nada mais acertado que os anais desse congresso fiquem conhecidos pelo nome desse valente camarada.

No decorrer do congresso, cruciais debates foram travados por seus dirigentes, delegados e demais participantes, assim como importantes mensagens de organizações socialistas/comunistas internacionais, amigos e aliados políticos foram recebidas, demonstrando a qualidade de nossos quadros e o prestígio público da nossa organização. Dentre esses debates, destacou-se a solidariedade internacional e a luta contra os malefícios do capitalismo mundial e a trágica situação nacional gerida pelo projeto conservador/liberal de Bolsonaro e seus ministros, cuja a única identidade cristã possível de compará-los seria como cavaleiros do apocalipse que, nesses 3 anos, espalharam no Brasil a peste (negacionismo científico e não enfretamento correto da pandemia), a guerra (cultura do ódio, militarismo e milícia), a fome (desemprego e alto custo de vida) e a morte (genocídio do povo pela pandemia, violência, acirramento das desigualdades e desprezo pelas minorias).

Ficou evidente também a nossa força e perseverança. Nosso partido não se abate e muitos exemplos históricos mencionados durante congresso atestaram isso. Me lembrei do momento recente da saída de Flávio Dino das nossas fileiras e as incertezas sobre o nosso futuro como legenda eleitoral. Esses dias foram perversos para o nosso moral, e sentimentos adversos passaram pela mentalidade do conjunto da nossa militância. Muitos interesses externos decretaram nosso fim, como relatou nossa presidenta Luciana Santos em sua fala de abertura. Esses mais uma vez fracassaram! Aqui estamos reluzentes e otimistas com o futuro de nosso partido e do Brasil, principalmente após a aprovação das Federações Partidárias. Continuo admirando Flávio Dino e reconhecendo sua contribuição para o partido nos anos que aqui esteve, mas não deixo de pensar e lamentar o quanto o governador se precipitou. A partir de agora, também, encerramos a comemoração pela aprovação das federações e começaremos um desafiador exercício de diálogos e entendimentos para a consolidação de uma importante aliança eleitoral e programática que perdurará pelos próximos quatro anos em todo país, como bem destacou nosso líder Renildo Calheiros.

Esse congresso, não só lançou um novo marco para as comemorações do nosso centenário, como alçou as diretrizes para a continuidade político-ideológica do nosso partido. O Brasil e o mundo continuam precisando de nós. O partido é essencial para a democracia e para a luta emancipatória do povo. Por fim, se nem a Ditadura Militar ou cláusula de barreira conseguiram pôr um fim ao PCdoB, não será a mosca chata que perseguiu o Walter Sorrentino no momento da apresentação do Relatório da Comissão de Sistematização que o fará, e como canta a sambista Elza Soares, para os desavisados, fica afirmada uma convicção expressa pelo PCdoB no seu 15º Congresso: “Eu não vou sucumbir, Eu não vou sucumbir, Avisa na hora que tremer o chão, Amiga, é agora, segura a minha mão”.

Vida longa ao Partido Comunista do Brasil e todo seu legado!

*Mestre e Doutorando em História do Brasil pela Universidade Federal do Piauí, Tesoureiro Geral da ANPG e Coordenador Nacional do Coletivo de Pós-Graduandos e Pós-Graduandas do PCdoB. Email: [email protected]